Monday, November 16, 2015

epitáfio


"Se Depois de Eu Morrer, Quiserem":


na cela
que escolheu
a dedo
sem inclinação
mística

fez tudo aquilo
que quis fazer

na cela
a dedo

tudo aquilo
quis fazer

inclinada
manual

tudo
quis



herança


ninguém nunca te disse
que podia ser

d’outra maneira

não podias errar a casa decimal
procuravas a justiça e o amor
bem que te fodeste
digo,
encarquilhaste

d’essa maneira

herdo um dizimo da casa
herdo a tristeza que não paga dívidas
herdo a liberdade de quem não tem 
pinheiros 
e a culpa de os arrancar 
para ler um livro

de madrugada



Sunday, November 08, 2015

"One pill makes you larger"


o outro preferia rosas,
meu amor, à pátria

quando eu digo que a realidade precisa
de poesia nem sempre
a poesia precisa de realidade
tu dizes, meu amor, que minto nos olhos

mas isto é só porque, entre outras coisas
na poesia ninguém ressona nem tem gases

na poesia lê-se mesmo, leio
na realidade limpo o pó aos livros

na poesia toda a gente sabe quando me zango
na realidade engulo sapos e continuo a sorrir

na poesia ninguém ralha connosco
quando saímos a meio dum texto
aflitinhas p’ra fazer xixi
ou com uma crise de soluços, um ataque de nervos
às vezes ambos
distraídos com o barulho
dum avião

e quando a poeta fica em casa de pijama e remela
tocam-lhe à campainha
p’ra lhe vender a internet mais rápida do mercado
p’ra lhe dar com a palavra de jesus
p’ra lhe pedir emprestado um saco-rolhas
ou porque é engano

noutros países mais frios
ficamos com as encomendas dos vizinhos
mesmo quando não nos conhecemos
assinamos por eles
mesmo quando nunca nos vimos

e percebemos pelo cheiro
que são rosas





Wednesday, November 04, 2015

contratura muscular


os meus livros
estão todos
do lado esquerdo

de quem vai a sair
p'la boca




Jogos de Poder


na cadeira

sentadas

a arte como vida

a vida como arte

empurram-se

uma à outra