Wednesday, December 09, 2015

"com licença poética"


intrigavam-na as que se passeiam com os seus rebentos de soja. se tiver um, já é muito. enquanto seca a pele ao sol. quanto tempo falta para secar tudo. de velhinho se torna menino. dois então. tem dois, já é muito. e há oráculos que profeciam um síndrome em vez da barriga. faz de conta que o corpo é imperturbável. que as noites são bem-dormidas. que anunciaram o fim do facebook, das frentes nacionais e da venda de armas. em contra-relógio faz de costas contas à vida. o auferido e por-ferir. é um tanto para o centro-dia e outro tanto para as iminências. se ao menos fosse grelada. mas hoje é 3aF e ainda vai a tempo de perder o euro milhões de festas. 
[facultativo: à-men, à-mãe, amei.

"somos poeira de estrelas"


O mapa está escondido
no céu da tua boca
apenas um dos heterónimos se esqueceu
onde deixaste

eu mesma ainda agora tinha aqui um
debaixo da língua
mas o sangue lavou-o

em todo o caso
é procurar a ilha amarela
follow the yellow brick road

encontramo-nos a meio caminho
the poet is (a) present





Bela Acordada

I.
experimenta o linho, em vez do celofane
- disseram-lhe
é mais orgânico e a pele respira

trocaram-lhe os fusos

ensanguentada
espera
o retorno do corpo
ao sono


II. 
não há beijo
vai comprimido
e pilhas

"vivá posmodernidade"
pensou para os seus botões-de-rosa
antes de adormecer

parasempre






Monday, November 16, 2015

epitáfio


"Se Depois de Eu Morrer, Quiserem":


na cela
que escolheu
a dedo
sem inclinação
mística

fez tudo aquilo
que quis fazer

na cela
a dedo

tudo aquilo
quis fazer

inclinada
manual

tudo
quis



herança


ninguém nunca te disse
que podia ser

d’outra maneira

não podias errar a casa decimal
procuravas a justiça e o amor
bem que te fodeste
digo,
encarquilhaste

d’essa maneira

herdo um dizimo da casa
herdo a tristeza que não paga dívidas
herdo a liberdade de quem não tem 
pinheiros 
e a culpa de os arrancar 
para ler um livro

de madrugada



Sunday, November 08, 2015

"One pill makes you larger"


o outro preferia rosas,
meu amor, à pátria

quando eu digo que a realidade precisa
de poesia nem sempre
a poesia precisa de realidade
tu dizes, meu amor, que minto nos olhos

mas isto é só porque, entre outras coisas
na poesia ninguém ressona nem tem gases

na poesia lê-se mesmo, leio
na realidade limpo o pó aos livros

na poesia toda a gente sabe quando me zango
na realidade engulo sapos e continuo a sorrir

na poesia ninguém ralha connosco
quando saímos a meio dum texto
aflitinhas p’ra fazer xixi
ou com uma crise de soluços, um ataque de nervos
às vezes ambos
distraídos com o barulho
dum avião

e quando a poeta fica em casa de pijama e remela
tocam-lhe à campainha
p’ra lhe vender a internet mais rápida do mercado
p’ra lhe dar com a palavra de jesus
p’ra lhe pedir emprestado um saco-rolhas
ou porque é engano

noutros países mais frios
ficamos com as encomendas dos vizinhos
mesmo quando não nos conhecemos
assinamos por eles
mesmo quando nunca nos vimos

e percebemos pelo cheiro
que são rosas





Wednesday, November 04, 2015

contratura muscular


os meus livros
estão todos
do lado esquerdo

de quem vai a sair
p'la boca




Jogos de Poder


na cadeira

sentadas

a arte como vida

a vida como arte

empurram-se

uma à outra



Friday, October 30, 2015

Tiragem


já nem pelos dedos de uma mão
se contam @s meus amig@s.

ó grácio! já dá pra fazer uma edição
de cinco exemplares
sem que se esgote
apoesia








Thursday, October 29, 2015

calamity jane


sou perigosa.
vivo no presente
e não me importo com a casa desarrumada
não tenho nada a perder

só os orgãos todos

- que já me tiraram os sisos

e uma mão-cheia de ideias

que também uso p’ra me masturbar






Friday, October 23, 2015

the new romantics


a cynical transfer
falling in deficit
a common currency
a single currency
looking for
a glimpse of goodness

can we discuss the rules?
no
why? 
because they’re the rules 
designated to fail in love


private debt to feed public mouths
in the breach
blood
on the snow
white elephants
as money sitting there
doing nothing for us

if only
a dangerous animal
lecturing on economics-for-all

in the journey crossing over
Eurozone


find a a river boat
and start to
sink

sing



Sunday, October 11, 2015

a vida adiada

"cantiga de s. joão"
(...)
"Olha a noite como corre
como passa tão depressa
amigos a noite morre
quando é que a manhã começa?

Quando é que a manhã começa
que é para a gente começar
dos pés até à cabeça
a mexer a respirar?"
(...)
Mário de Cesariny

começou
por apodrecer

até à exaustão
da pele

despiu-se
da filha

só queria dar-lhe chão

Thursday, October 08, 2015

external politics


clapping with a metronome

to the mistakes and grammatical oddities

which will end up as retentions

where the method of systematic doubt can be applied

while the traffic controlling operations

shepherd visitors in a certain direction 

'get out’ 
requires instant compliance

Wednesday, October 07, 2015

my private (a)f(f)airs


wax figures

aerial and terrestrial

strong people

as

unplayable techniques

trained animals

lined-up

for

containing a large number of entries

and for

being one of the first

repertoire of deceptions

something like thirty different methods of cheating at cards
that never work

like breeding tiptoe(r)s

the acceptance of “utility”

as in

never quit performing on the rope



Monday, October 05, 2015

desesperança


não há ninguém indicado

/a

para


reagir

.




Thursday, September 24, 2015

morTal da hisCória


rejeitada de par em par


perdi a luta a par e passo





pequeno-almoço II


há algo de errado
em tudo isto
e eu sei que tu sabes que eu sei
há até uma explicação científica
mas isso de pouco vale
quando tens insónias
e enfias os pesadelos pela goela abaixo
as dívidas debaixo do tapete
as dores à obra

e eu sou toda-ouvidos
mas não faço nada

tu falas
eu oiço
e não acontece nada

então dividimos a culpa em três quartos
e começamos por cima
a rapar




Wednesday, August 12, 2015

do desperdício


que inventasse uma nova
língua

que
pudesse 
por inteiro
.

pôr-te na minha boca
.



Tuesday, August 11, 2015

sejamos então doentes


não nos desgastemos mais
a tirar as ervas
entre os tomateiros
não vão reverdescer
novas palavras
para comunicarmos mais saudáveis

sejamos então doentes
até ao figado
gozemos a cor amarelada da pele
gozemos a fama e o proveito
gozemos o esforço desnecessário
gozemos a dor e os intervalos a fumo
gozemos as coisas a mais e o pouco que nos resta

naquela coisa onde a gente pôs as uvas
vejamos aparecer
uma cirrose bem treinada nas artes da retórica
que diga por nós
.

as saudades já não me bastam
para pôr a comida na mesa

alimento-me de mim e deixo-me engordar
a olhos vistos

fechei as janelas para não ter correntes d’ar
para não ouvir mais o galo
nem os pássaros demasiadamente matutinos

tenho a língua desbotada do sol
e queimei há muito
o último vestido
em condições de aparecer em público
não quero provar mais nada
ajustar
justificar
à esquerda
ou mesmo à direita

prefiro dar à costa

tenho medo
por exemplo
de me esquecer de tomar os comprimidos
por exemplo
de não saber o caminho de volta

mas fecho os olhos
e faço-me
pernas p'randar