Monday, June 19, 2017

  
com A., para A. 



não tinham dinheiro
para detalhes


o caminho dos incêndios

é perder filhos
              palácios


Thursday, June 01, 2017


nao vás à água


tive que

os deitar fora


passar ao largo

do mediterrâneo





assaltou uma casa

de flores

esterilizadas

ao tirar
[ou ao substituir por outras branduras
a mordaça                      

espalhou as abelhas

pelas gavetas

do seu corparmário.




Monday, May 29, 2017



não existe por si mesma



são precisas

águas paradas

instrumentos íntimos

par celas que



não limpa r e l a t a 




Monday, February 27, 2017

Tra-dedo-sãos

enrolar a língua

watch your tongue
não é olhar a língua

ao enrolar a língua
dá-se a morte do autor

poetic depth
poetic dead

sento-me a velar o morto
para depois

enrolar a língua



olhava para o penhasco
e dizia
vou-me matar
para tu não me matares
.
e acordava
com terra na boca
e o cabelo salgado

Monday, November 28, 2016

Para A.

nessa altura
estava
verdadeira
mente apaixonada por demo
lições
um estudo para a ruína
ensaia
as ausências
sempre à volta
não era fixo
- isto parece um coração, não parece?
agora é tarde.
sempre gostei de ver
com o corpo todo
sair 
por este portão
fora


entaramelada

se eu soubesse dizer - dizia - se eu não soubesse - digo - se eu soubesse - não dizer- dizia - se eu dizesse - sabia - não digo -
dedo
medo

morde
foge

procuro um crepúsculo antigo

onde arder

tampouco o risco ou o rasto




Thursday, May 26, 2016

"homesickness"


casa onde não há pão
todos ralham
e ninguém tem razão

casa onde não há pão
há casa
e renda

casa onde não há pão
amores todos os dias
enlatados

casa onde
não há




Wednesday, April 20, 2016

Bulbo


os dias acabam
sem nunca terem começado

entro afogueada
e sento-me
no vaso antigo e meio lascado

sento-me na beirinha
e de pernas juntinhas
equilibrada
good girl

foi assim que envelheci
quando a lombar germinou
em curvatura
nem p'ra hastear
servia
aos bichos

deixei-me cair de costas






Saturday, February 27, 2016

"Jardim" // "o sol aceita a pele para ficar"

recensão visual da 'expoemização'-vigília JARDIM 
de joão almeida
"o sol aceita a pele para ficar"



I

leio os últimos poemas que escrevi // escrevo poemas a partir daqui


II


"tu não fazes só poesia por questões líricas"


III



*grátisfracassadaimperfeitaluminosacontaminadasublimelocalexpandidatrêsdêromanticapossívelagrafada
últimos
os
escrevi
que
poemas
últimos
os
leio
  

TU pqp pqp pqp
pqp pqp pqp NÃO FAZuriqueESublime 
só SÓ SÓ SÓ 
POESIA*
por QUESTÕES 
LÍRICAS*


* fetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencion

escrevo poemas a partir daqui







Tuesday, February 16, 2016


a principio pensaram tratar-se dos que não chegaram a nascer

debaixo de água

viviam uma existência nocturna

alimentando-se de insectos

eram capazes de explorar


alguns ficavam presos ao leito marinho

outros invadiam os cursos de água doce


já estavam em declíneo
e acabariam por desaparecer quase por completo


Wednesday, January 06, 2016


Nunca julgues um livro pela capa

diz, 

enquanto o segura

como uma espécie de tenaz

faz ainda três medições diferentes

os braços abertos em cruz


anota,

o corte com visões particulares do mundo

da metodologia convencional à criativa

o realismo estatístico dos agregados 


Não é poesia, é mesmo assim. O bom vinho nasce da pedra



Wednesday, December 09, 2015

"com licença poética"


intrigavam-na as que se passeiam com os seus rebentos de soja. se tiver um, já é muito. enquanto seca a pele ao sol. quanto tempo falta para secar tudo. de velhinho se torna menino. dois então. tem dois, já é muito. e há oráculos que profeciam um síndrome em vez da barriga. faz de conta que o corpo é imperturbável. que as noites são bem-dormidas. que anunciaram o fim do facebook, das frentes nacionais e da venda de armas. em contra-relógio faz de costas contas à vida. o auferido e por-ferir. é um tanto para o centro-dia e outro tanto para as iminências. se ao menos fosse grelada. mas hoje é 3aF e ainda vai a tempo de perder o euro milhões de festas. 
[facultativo: à-men, à-mãe, amei.

"somos poeira de estrelas"


O mapa está escondido
no céu da tua boca
apenas um dos heterónimos se esqueceu
onde deixaste

eu mesma ainda agora tinha aqui um
debaixo da língua
mas o sangue lavou-o

em todo o caso
é procurar a ilha amarela
follow the yellow brick road

encontramo-nos a meio caminho
the poet is (a) present





Bela Acordada

I.
experimenta o linho, em vez do celofane
- disseram-lhe
é mais orgânico e a pele respira

trocaram-lhe os fusos

ensanguentada
espera
o retorno do corpo
ao sono


II. 
não há beijo
vai comprimido
e pilhas

"vivá posmodernidade"
pensou para os seus botões-de-rosa
antes de adormecer

parasempre






Monday, November 16, 2015

epitáfio


"Se Depois de Eu Morrer, Quiserem":


na cela
que escolheu
a dedo
sem inclinação
mística

fez tudo aquilo
que quis fazer

na cela
a dedo

tudo aquilo
quis fazer

inclinada
manual

tudo
quis



herança


ninguém nunca te disse
que podia ser

d’outra maneira

não podias errar a casa decimal
procuravas a justiça e o amor
bem que te fodeste
digo,
encarquilhaste

d’essa maneira

herdo um dizimo da casa
herdo a tristeza que não paga dívidas
herdo a liberdade de quem não tem 
pinheiros 
e a culpa de os arrancar 
para ler um livro

de madrugada



Sunday, November 08, 2015

"One pill makes you larger"


o outro preferia rosas,
meu amor, à pátria

quando eu digo que a realidade precisa
de poesia nem sempre
a poesia precisa de realidade
tu dizes, meu amor, que minto nos olhos

mas isto é só porque, entre outras coisas
na poesia ninguém ressona nem tem gases

na poesia lê-se mesmo, leio
na realidade limpo o pó aos livros

na poesia toda a gente sabe quando me zango
na realidade engulo sapos e continuo a sorrir

na poesia ninguém ralha connosco
quando saímos a meio dum texto
aflitinhas p’ra fazer xixi
ou com uma crise de soluços, um ataque de nervos
às vezes ambos
distraídos com o barulho
dum avião

e quando a poeta fica em casa de pijama e remela
tocam-lhe à campainha
p’ra lhe vender a internet mais rápida do mercado
p’ra lhe dar com a palavra de jesus
p’ra lhe pedir emprestado um saco-rolhas
ou porque é engano

noutros países mais frios
ficamos com as encomendas dos vizinhos
mesmo quando não nos conhecemos
assinamos por eles
mesmo quando nunca nos vimos

e percebemos pelo cheiro
que são rosas





Wednesday, November 04, 2015

contratura muscular


os meus livros
estão todos
do lado esquerdo

de quem vai a sair
p'la boca