Thursday, May 26, 2016

"homesickness"


casa onde não há pão
todos ralham
e ninguém tem razão

casa onde não há pão
há casa
e renda

casa onde não há pão
amores todos os dias
enlatados

casa onde
não há




Wednesday, April 20, 2016

Bulbo


os dias acabam
sem nunca terem começado

entro afogueada
e sento-me
no vaso antigo e meio lascado

sento-me na beirinha
e de pernas juntinhas
equilibrada
good girl

foi assim que envelheci
quando a lombar germinou
em curvatura
nem p'ra hastear
servia
aos bichos

deixei-me cair de costas






Saturday, February 27, 2016

"Jardim" // "o sol aceita a pele para ficar"

recensão visual da 'expoemização'-vigília JARDIM 
de joão almeida
"o sol aceita a pele para ficar"



I

leio os últimos poemas que escrevi // escrevo poemas a partir daqui


II


"tu não fazes só poesia por questões líricas"


III



*grátisfracassadaimperfeitaluminosacontaminadasublimelocalexpandidatrêsdêromanticapossívelagrafada
últimos
os
escrevi
que
poemas
últimos
os
leio
  

TU pqp pqp pqp
pqp pqp pqp NÃO FAZuriqueESublime 
só SÓ SÓ SÓ 
POESIA*
por QUESTÕES 
LÍRICAS*


* fetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencionfetatencion

escrevo poemas a partir daqui







Tuesday, February 16, 2016


a principio pensaram tratar-se dos que não chegaram a nascer

debaixo de água

viviam uma existência nocturna

alimentando-se de insectos

eram capazes de explorar


alguns ficavam presos ao leito marinho

outros invadiam os cursos de água doce


já estavam em declíneo
e acabariam por desaparecer quase por completo


Wednesday, January 06, 2016


Nunca julgues um livro pela capa

diz, 

enquanto o segura

como uma espécie de tenaz

faz ainda três medições diferentes

os braços abertos em cruz


anota,

o corte com visões particulares do mundo

da metodologia convencional à criativa

o realismo estatístico dos agregados 


Não é poesia, é mesmo assim. O bom vinho nasce da pedra



Wednesday, December 09, 2015

"com licença poética"


intrigavam-na as que se passeiam com os seus rebentos de soja. se tiver um, já é muito. enquanto seca a pele ao sol. quanto tempo falta para secar tudo. de velhinho se torna menino. dois então. tem dois, já é muito. e há oráculos que profeciam um síndrome em vez da barriga. faz de conta que o corpo é imperturbável. que as noites são bem-dormidas. que anunciaram o fim do facebook, das frentes nacionais e da venda de armas. em contra-relógio faz de costas contas à vida. o auferido e por-ferir. é um tanto para o centro-dia e outro tanto para as iminências. se ao menos fosse grelada. mas hoje é 3aF e ainda vai a tempo de perder o euro milhões de festas. 
[facultativo: à-men, à-mãe, amei.

"somos poeira de estrelas"


O mapa está escondido
no céu da tua boca
apenas um dos heterónimos se esqueceu
onde deixaste

eu mesma ainda agora tinha aqui um
debaixo da língua
mas o sangue lavou-o

em todo o caso
é procurar a ilha amarela
follow the yellow brick road

encontramo-nos a meio caminho
the poet is (a) present





Bela Acordada

I.
experimenta o linho, em vez do celofane
- disseram-lhe
é mais orgânico e a pele respira

trocaram-lhe os fusos

ensanguentada
espera
o retorno do corpo
ao sono


II. 
não há beijo
vai comprimido
e pilhas

"vivá posmodernidade"
pensou para os seus botões-de-rosa
antes de adormecer

parasempre






Monday, November 16, 2015

epitáfio


"Se Depois de Eu Morrer, Quiserem":


na cela
que escolheu
a dedo
sem inclinação
mística

fez tudo aquilo
que quis fazer

na cela
a dedo

tudo aquilo
quis fazer

inclinada
manual

tudo
quis



herança


ninguém nunca te disse
que podia ser

d’outra maneira

não podias errar a casa decimal
procuravas a justiça e o amor
bem que te fodeste
digo,
encarquilhaste

d’essa maneira

herdo um dizimo da casa
herdo a tristeza que não paga dívidas
herdo a liberdade de quem não tem 
pinheiros 
e a culpa de os arrancar 
para ler um livro

de madrugada



Sunday, November 08, 2015

"One pill makes you larger"


o outro preferia rosas,
meu amor, à pátria

quando eu digo que a realidade precisa
de poesia nem sempre
a poesia precisa de realidade
tu dizes, meu amor, que minto nos olhos

mas isto é só porque, entre outras coisas
na poesia ninguém ressona nem tem gases

na poesia lê-se mesmo, leio
na realidade limpo o pó aos livros

na poesia toda a gente sabe quando me zango
na realidade engulo sapos e continuo a sorrir

na poesia ninguém ralha connosco
quando saímos a meio dum texto
aflitinhas p’ra fazer xixi
ou com uma crise de soluços, um ataque de nervos
às vezes ambos
distraídos com o barulho
dum avião

e quando a poeta fica em casa de pijama e remela
tocam-lhe à campainha
p’ra lhe vender a internet mais rápida do mercado
p’ra lhe dar com a palavra de jesus
p’ra lhe pedir emprestado um saco-rolhas
ou porque é engano

noutros países mais frios
ficamos com as encomendas dos vizinhos
mesmo quando não nos conhecemos
assinamos por eles
mesmo quando nunca nos vimos

e percebemos pelo cheiro
que são rosas





Wednesday, November 04, 2015

contratura muscular


os meus livros
estão todos
do lado esquerdo

de quem vai a sair
p'la boca




Jogos de Poder


na cadeira

sentadas

a arte como vida

a vida como arte

empurram-se

uma à outra



Friday, October 30, 2015

Tiragem


já nem pelos dedos de uma mão
se contam @s meus amig@s.

ó grácio! já dá pra fazer uma edição
de cinco exemplares
sem que se esgote
apoesia








Thursday, October 29, 2015

calamity jane


sou perigosa.
vivo no presente
e não me importo com a casa desarrumada
não tenho nada a perder

só os orgãos todos

- que já me tiraram os sisos

e uma mão-cheia de ideias

que também uso p’ra me masturbar






Friday, October 23, 2015

the new romantics


a cynical transfer
falling in deficit
a common currency
a single currency
looking for
a glimpse of goodness

can we discuss the rules?
no
why? 
because they’re the rules 
designated to fail in love


private debt to feed public mouths
in the breach
blood
on the snow
white elephants
as money sitting there
doing nothing for us

if only
a dangerous animal
lecturing on economics-for-all

in the journey crossing over
Eurozone


find a a river boat
and start to
sink

sing



Sunday, October 11, 2015

a vida adiada

"cantiga de s. joão"
(...)
"Olha a noite como corre
como passa tão depressa
amigos a noite morre
quando é que a manhã começa?

Quando é que a manhã começa
que é para a gente começar
dos pés até à cabeça
a mexer a respirar?"
(...)
Mário de Cesariny

começou
por apodrecer

até à exaustão
da pele

despiu-se
da filha

só queria dar-lhe chão

Thursday, October 08, 2015

external politics


clapping with a metronome

to the mistakes and grammatical oddities

which will end up as retentions

where the method of systematic doubt can be applied

while the traffic controlling operations

shepherd visitors in a certain direction 

'get out’ 
requires instant compliance

Wednesday, October 07, 2015

my private (a)f(f)airs


wax figures

aerial and terrestrial

strong people

as

unplayable techniques

trained animals

lined-up

for

containing a large number of entries

and for

being one of the first

repertoire of deceptions

something like thirty different methods of cheating at cards
that never work

like breeding tiptoe(r)s

the acceptance of “utility”

as in

never quit performing on the rope