Wednesday, June 13, 2007

Um solzinho pequenino

Monday, June 04, 2007

desabafo a seis tempos

seis meses, meio ano
sento-me na grande mesa da vida e olho para o copo do tempo: meio cheio ou meio vazio?
não sei se chove lá fora.
sei que não aprendi a falar nenhuma nova língua
nem me tornei uma pessoa melhor
nem li o que podia
fortizzimo, ma non troppo

Thursday, May 31, 2007

over and over and over and over and over

and

ela passa os crepúsculos em catálogos de quinquilharia

pensando como seria feliz se tivesse mais um roupeiro onde

arrumar a roupa arrumar a roupa arrumar a roupa arrumar-

-se arrumar se arrumar se arrumar se a marrar se a marrar se marrar

over

ela passa as tardes em queixumes de chocolate e café

pensando como seria feliz se não tivesse queixumes

às vezes não tem chocolates outras vezes não tem café
and

ela passa as manhãs em limpezas sísificas

pensando como seria feliz se as narinas da casa não espirrassem tanto pó

pensando como seria feliz se

pensando como seria feliz

pensando como seria

over

cata-estrofe

ela disse "isto é um escândalo! os jovens de hoje-em-dia não sabem que os ovos são para comer com talher, o talher de peixe!"
do outro lado do televisor, em formato pb, as bocas esfaimadas dos dias acercaram-se do talher que por esta altura já cheirava a peixe assado, sonhando com um ovo bem cozido.

Tuesday, May 29, 2007

where the head has been

ele ordenava meticulosamente os seus poemas
] por guerras

Monday, May 21, 2007

VI Encontro Internacional de Poetas

vejam o programa no site. (aqui ao lado)

Tuesday, May 15, 2007

Jantar de nãos

To Miss M.


hoje não faço anos.
comemoro não anos . anos não comemoro
faço um jantar de nãos.
sem velas.
para me des lembrar quanto tempo não me falta
para desacordar
sem dizer adeus aos meus sapatos.

Monday, May 14, 2007

"Dá-me um começo", disse-lhe, "depois da noite transfigurada"
?missa em si
?si-belius ou o grande lobo da finlândia
?m-is-e-en-scène duma chávena partida
?mis-si-ssipi ou o grande engolidor de chamas
"esquece", disse-lhe, "dá-me antes um final"
?mi
?miss T. eriously.
?miss U.

"esquece", disse-lhe, "um ponto final fica just fine".

Friday, May 11, 2007

AS FESTAS DA MINHA ALDEIA


porque hoje é finalmente o último dia

Saturday, May 05, 2007

Sobre Literatura

ofereço colheradas de Gonçalo M. Tavares sobre literatura:

“Toda a literatura é assunto de letras paradas fazerem ou não as coisas do mundo moverem-se.

(…)

Mas agir é diferente. Agir envolve alfabetos fisiológicos, construções gramaticais, humanas, e não só, que estabelecem ligações matemáticas e respiratórias entre, por exemplo, a necessidade de um organismo se alimentar e os projectos que a cabeça de um homem pode ter.

(…)

as únicas acções existentes na escrita são o escrever e o apagar. Se eu escrever agora ele corre, a única acção que existiu nesta frase foi a acção de escrever: agora ele corre.

(…)

Toda a escrita, pelo menos a decente, ou seja: a magnífica, toda a escrita instala, é certo, uma promessa de movimento, de acção.

(…)

Mas se existem dois pontos é porque existe uma distância entre eles que permite a distinção. E uma promessa de vida imediatamente a seguir concretizada - como sucede na grande literatura - é ainda um ponto que se sabe separado do Grande Ponto: isto é: da vida clássica, do sítio onde os nomes não existem, mas existe a morte, a doença, o acidente absolutamente bruto que pode levar em definitivo aquele com quem hoje queríamos conversar sobre algo inútil.”

Gonçalo M. Tavares

A colher de Samuel Beckett Ed. Campo das Letras

Sunday, April 29, 2007

"death is the mother of beauty" Wallace stevens

"Fui à rua buscar a morte que andava desaustinada pelas paredes como cão raivoso. Ofereci-lhe o braço, trouxe-a comigo, fi-la minha amante. Num leito de linho nos deitámos e em segredo me falou dias seguidos sobre a sua infância, a solidão debaixo da terra, o amor pela natureza. Explicou-me como acariciava os bichos comedores de cadáveres e dessa alegria maliciosa.
A morte passou a ter para mim muita importância. Comecei a vesti-la de alvas roupas, coser-lhe flores ao crânio, amando-lhe a face lívida, iniciando-a numa sensualidade sem fim.
Então, numa manhã a Morte sorriu mostrando nos lábios o seu carácter perfeito, isento de mesquinhez; beijou-me a boca, as pernas, o coração. Perturbou-me.
No meu interior países fervilhavam, milhões de rostos se viraram à luz:
tudo era claro como nunca sucedera.

Começara outra vida: dera-se a iluminação"


Isabel de Sá Repetir o Poema, ed.quasi

Friday, April 27, 2007

tenho pena da mão que nos pariu

na corrosão dos dedos pela fugacidade da areia
.

) a infância é de porcelana amarelecida
parte-se quando lhe fazemos festas (



Friday, April 20, 2007

work ON progress

a partir do livro de Amos Oz Contra o fanatismo

Salazar é um fanático.

levanta-se cedo para nutrir o gosto pelo kitsch através da adoração iconófila das imagens de nossa senhora made in china.

Salazar é um fanático.

um sentimentalista incurável a quem se lhe comove a pupila direita sempre que o tímpano esquerdo pressente os primeiros acordes do hino.

Salazar é um fanático.

quer libertar os seus vizinhos do ócio, da podridão moral e económica. para o bem de todos.

Salazar é um fanático.

historiadores, biógraf@s, sociólog@s, psicólog@s, e cabeleireir@s não descobriram que o grande problema de Salazar foi a grande ausência de sentido de humor. Os fanáticos são sarcásticos.

Rir é uma forma de se outrar.

Um homem sem sentido de humor só podia ter uma ideia sem graça nenhuma, uma ideia de onde não se podiam colher cravos, nem qualquer outra espécie de VIDA. os impérios tal como as igrejas, nascem sob o sol da morte.

Dizem os cientistas que a perda das certezas elementares da vida pode ter originado o meio século mais contaminado de idei-ulogias. Portugal contraiu o vírus.

Depois veio a música.

eram vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos no relógio da rádio.

De quem é esta terra?

nossa.

Há uma promessa, uma promessa que é um cão de faro tapado.

Tuesday, April 17, 2007

um mês e um dia

já que as comemorações estão na moda, aproveito para celebrar as não-postagens do blog. A afasia faz hoje um mês e um dia. A caneta ainda nutre esperanças de voltar a perder a tampa.
sem mais delongas
o peixe-que-queria-ser-um-tira-linhas

Wednesday, March 14, 2007

adília lopes para mim

os papelotes

nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca


Adília Lopes, Obra, ed.Mariposa Azual, poema da p. 161

Tuesday, March 06, 2007

As Patas Posteriores das Pulgas


Lançamento do livro da poeta aNa B


as patas posteriores das pulgas


7/março/2007

18h

Teatro Académico Gil Vicente (TAGV)



Apresentação do livro pela Professora Doutora Graça Capinha


Sunday, March 04, 2007

as coisas da vida

as coisas da vida ocupam muito espaço. pelo menos é o que dizem a minha secretária, mesinha de cabeceira, estantes, roupeiro, gavetas.

Friday, March 02, 2007

Oficina de Poesia- a martelar palavras desde 1997

é verdade! comemoram-se os 10 anos de existência da oficina de poesia!

eis o cardápio das celebrações:

2/Março
Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra)

17h30: Inauguração da exposição "oficina de Poesia-10 anos"

18h: Leitura de poemas integrada na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, sob o tema "o direito a uma escrita solar"