Tuesday, April 17, 2007

um mês e um dia

já que as comemorações estão na moda, aproveito para celebrar as não-postagens do blog. A afasia faz hoje um mês e um dia. A caneta ainda nutre esperanças de voltar a perder a tampa.
sem mais delongas
o peixe-que-queria-ser-um-tira-linhas

Wednesday, March 14, 2007

adília lopes para mim

os papelotes

nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca


Adília Lopes, Obra, ed.Mariposa Azual, poema da p. 161

Tuesday, March 06, 2007

As Patas Posteriores das Pulgas


Lançamento do livro da poeta aNa B


as patas posteriores das pulgas


7/março/2007

18h

Teatro Académico Gil Vicente (TAGV)



Apresentação do livro pela Professora Doutora Graça Capinha


Sunday, March 04, 2007

as coisas da vida

as coisas da vida ocupam muito espaço. pelo menos é o que dizem a minha secretária, mesinha de cabeceira, estantes, roupeiro, gavetas.

Friday, March 02, 2007

Oficina de Poesia- a martelar palavras desde 1997

é verdade! comemoram-se os 10 anos de existência da oficina de poesia!

eis o cardápio das celebrações:

2/Março
Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra)

17h30: Inauguração da exposição "oficina de Poesia-10 anos"

18h: Leitura de poemas integrada na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, sob o tema "o direito a uma escrita solar"

Tuesday, February 27, 2007

ver as coisas de outra perspectiva

"nos ensinamentos maniqueístas, deus não é o verdadeiro ser: é o que nasceu em segundo. o primeiro a nascer é o monstro, o demónio a quem deus, o usurpador, destronou, através de truques e práticas sabidas, expulsando-o para o mar...Ou seja, um deus enganador identifica o demónio com o Mal, embora este exista para criar a existência infinita com direito a morrer, em vez de uma existência finita com a imposição de uma morte inevitável"

Eric Mottram, "Os meios ao dispor da Poética" in Revista Crítica de Ciências Sociais, nº47, p.46

[quinze de abril]

há vermelho no branco
a carne aberta pelo linho
um sangue surdo para fora do tempo

lavo os olhos no negro
que torna vermelho o linho

Pedro Sena-Lino
p. 23 de Deste Lado da Morte Ninguém Responde, edições Quasi, 2005

sobre o autor pode ler-se o essencial na badana:
Pedro Sena-Lino (n.1977), sexualmente interessado em Deus.

Monday, February 26, 2007

amor em alemão

"nós não damos rosas, damos beijos"

Saturday, February 24, 2007

Adega de Pegões (Trincadeira)

Há em todos os objectos uma ausência iminente.

Deixa

-se revelar pela luz Fixa

-se na forma até à persistência da visão

o que não diz um casaco pendurado no hall.de que cor são os meus cabelos quando ditos pelos meus ganchos abandonados na mesa branca.

Thursday, February 22, 2007

coliquação

UM DIA AO ACORDAR VIU QUE TINHA UMA FERIDA
NA CABEÇA DO TAMANHO DE UMA CABEÇA DE FÓSF
ORO NO DIA SEGUINTE AO ACORDAR VIU QUE TIN
HA UMA FERIDA NA CABEÇA DO TAMANHO DE UMA
BARRIGA DE MOSCA NO DIA SEGUINTE AO ACORDA
R VIU QUE TINHA UMA FERIDA NA CABEÇA DO TA
MANHO DE UM OLHO DE VACA NO DIA SEGUINTE A
O ACORDAR VIU QUE TINHA UMA FERIDA NA CABE
ÇA DO TAMANHO DE UMA CABEÇA DE RATO A FERI
DA ALARGOU ALASTROU AO CORPO TODO E PASSAD
AS UMAS SEMANAS ERA COMO UM PÊSSEGO PODRE
SEM CAROÇO MAS DA MESMA COR E CHEIRANDO TÃ
O MAL QUE A ALMA O ABANDONOU DEFINITIVAMENTE.


Alberto Pimenta, Obra Quase Incompleta, ed. Fenda, p. 77

gestos antigos

há uns dias, um conjunto de circunstâncias que não carecem de ser especificadas, levaram-me a entrar numa cabine telefónica, levantar o auscultador, deixar que a máquina devorasse as minhas moedas, marcar o número, e esperar. Soube-me bem. Não sou um arquétipo do saudosismo bacoco português, contudo, arrogo-me a afirmar "tinha saudades" desta sequência de pequenos gestos, (felizmente?) substituídos pelo pragmatismo dos telemóveis.
por falar em gestos antigos, isto lembrou-me a minha ida natalícia aos correios, (percurso quase esquecido), onde pude ainda ouvir o inusitado pedido dum senhor velhinho para a senhora dos correios:
"ó menina, escangalhe-me aí esta nota" [10euros].

Tuesday, February 20, 2007

Aviso

avisa(m)-se @(s) utente(s) deste blog, que o funcionamento do mesmo se processa por espirros mentais, o mesmo é dizer que após grandes períodos de afasia , se seguem outros tantos de logorreia.
desde já muita obrigada pela atenção!
os melhores cumprimentos

Conformite

a nova edição/configuração do jornal Público revela um sintoma que é causa de uma das três mais frequentes doenças nacionais; a saber, a conformite, as doenças de coração e o zapping de domingo.
"eu quero outrar-me, outrar-me,
outrar-me perdidamente"

Fernand@ Pessoa, em flagrante "delitro", a brincar com os poemas de florbela espanca

a ordem das coisas

é da natureza dos anéis, serem perdidos por dedos desamados.

é da natureza dos arlequins serem tristes como carnavais mal disfarçados.



é da natureza dos chapéus ocultarem cabeças-de-lâmpadas-fundidas.


é da natureza do público das coisas não existir, e é da natureza das coisas existir sem público.


é da natureza d@s ma(u)s poetas escreverem metáforas parvas às tantas da madrugada, em lugar de tomarem um xanax, como fazem as pessoas de bem.

Saturday, February 17, 2007

Provérbio Africano

Enquanto os leões não tiverem historiadores, a história será sempre dos caçadores.







Monday, February 12, 2007

História Natural

os pés pisam o palco preto.
a nudez inicial transforma-se em movimentos de animal ferido.
finda a música fica a respiração assimétrica dos corpos em fuga.

De vestido em vestido volta-se a contar a Estória
- natural-izada de um bolo de chocolate.

Elas renascem dos sapatos de salto
- alto como o sol invisível que lhes puxa os fios de marionetas antigas
e vê-se o medo nos músculos
- em pontas.

Há que calcular o tempo entre a muda da primeira camada de pele
e a próxima.

Os homens-cabide fixam residência
num silêncio de três quartos
enquanto os cães negros se lançam por dentro
da madeira.

Uma cadeira sem gente, sem roupa, sem som
- permanecerá “cadeira”?

Monday, February 05, 2007

DE UM MOMENTO PARA O OUTRO PODE ENTRAR


um pássaro que levante o céu.
Alexandre O'Neill

Confiança

Em Salónica conheço alguém que me lê.

E em Bad Nauheim.

Já são dois.


Gunter Eich

Rosa do Mundo-2001 poemas para o futuro