Wednesday, January 30, 2008

: e depois disse-lhe que tinha os olhos muito verdes

-

algas encarquilhadas nas pupilas giratórias do por vir

-

perdem invernos inteiros na mudança da cor

-


: e depois apareceu
o autocarro

Thursday, January 24, 2008

estratégia de sobrevivência

olho para a janela que-
olha para o gato que-
olha para o pássaro que-
olha para a minhoca que-
olha para mim-
com hálito a terra molhada e detritos antigos
e uma interrogação de cerdas em forma de anel
a deslizar pelo ventre destes dias de húmus

que-
um casulo cheio de ovos deixa a embalar o solo.

olha que-
pequenos vermes

Monday, January 21, 2008

viagem nas entranhas do mundo sentado

ana B poetiza-se no Brasil.
A Confraria do Vento tem alojados os poemas da ana B aqui.
entretanto:

havia uma viagem nas entranhas do mundo sentado // da espera // da antiguidade da pele*


e as articulações regiam-se pela espécie mais oculta
dos líquidos


a equação do malabarismo embrenhava a artífice do sono


na arqueologia descoberta das línguas dedilhadas // da bactéria gramatical // do perigo sossegado-sussurrado #


até a entrada nos pórticos salgados dos últimos continentes ligeiramente despertos/dispersos


na gestação dos imensos ombros acessos



* escolher uma ou várias

# adicionar mais


ana B

Saturday, January 19, 2008

O.M.O (Óptimo para Mulheres Oblíquas)*

agora ela sabe que.

agora ela sabe que.
é mais branco

agora ela sabe que.
é mais branco e lava melhor

agora ela sabe que.
os utensílios de cozinha servem para abotoar os olhos

agora ela sabe que.
a roupa passa-lhe os dias a ferro e amarrota-lhe os estames.

agora ela sabe que.
um mau passo faz coxear todo o vestido
e a estafa da boca é uma torneira cansada de ácaros e unguentos

agora ela sabe que.
o processo de ascensão é encardido
acaba e começa nas unhas

agora ela sabe que.
omo é a solução
e o sorriso é uma linha torta com espuma activa
que faz com que tudo se endireite


* NB: este poema deve ser esfregado aqui.

Monday, January 14, 2008

Desregresso

há duas mil e oito formas de dizer adeus

definidas pela liquidez da contagem dos dias

permeáveis por dentro

alimentam-se de especiarias, flores, chocolates

e maçãs podres


às vezes riem-se à desgarrada
nervosinhas
inseguras
.
desregresso-me aí.

Wednesday, December 19, 2007

no princípio era

uma coisa

pequenina
inclassificável
.
depois
continuava uma coisa pequenina.

contudo
cresceu em quantidades extremamente razoáveis
para se poder dizer que
não cresceu
assim tanto.

ao que parece, não era um problema, e ensaboava os olhos todas as manhãs.
não percebia muito dos outr-iços que encontrava nos passeios golpeados assimetricamente para o lado de cá do ruído dos cabelos.
tinha recursos de azul que escorriam pelo canto da boca delineada a pixel.
pelos anos recebeu uma represália de orquídeas.
adormeceu a meio da morte, com tudo aquilo a que tinha direito
e mais um botão.

Tuesday, December 04, 2007

in memoriam

pescadores
macerados na salga
das flores. livros. orações

remendos azuis na rebentação

cumprem o mar.


Saturday, November 17, 2007

quando terminaram de me atirar todas as pedras
.
as lágrimas lavraram as feridas exangues
e percebi-me uma geometria de sólidos e gestos áridos
.
lambi-me na solidão das magnólias brancas
.
um candeeiro apagado
.
a morrer-se com a última estrela
numa desistência de luzes

Saturday, November 10, 2007

pour le monsieur A.

às x

já nem cabia na mala

ficava uma história com a gola a pender, ou uma pata de fora ou desgastavam-se os punhos de um provérbio sem botões

de punho

E depois ninguém podia dizer que fora por sua culpa que se perderam os mitos dos grandes ómens civilizadores educadores e desoutrificadores

.

pois não cabiam na mala-que-não-cabia

no porão

que era imenso e de ébano.

.

nem soprando no café confinado à chávena de retalhos de louça de Guell

poderia perceber a origem dos furacões

quanto mais a teimosia da mala onde não coubera – cabia – exígua -

.

ainda pensou na decantação da violeta de cristal por meio de um composto

orgânico

não

restava-lhe apenas

o cheiro a canela

açafrão

cardamomo

restava-lhe apenas

vestir o velho trajecto das especiarias

e entrar no caleidoscópio

. nú


Sunday, November 04, 2007

pássaros súbitos

em quedas de casco duplo


pulmões pressurizados

em mutilação de horas


campos a espernear

com panos húmidos na boca


?explicam

a metodologia da guerra


aprumada a maquinaria

pega de estaca.


e a grande Lacuna a sorrir-nos

(so polite!

desmembrada

vem à porta


.diz adeus.

Friday, October 26, 2007

o músculo da noite descansa na velha poltrona
um declínio de luzes
a repensar
a rota
da radícula

.
no herbanário da escola
uma lista de amores-imperfeitos
por secar
.

Wednesday, October 24, 2007

Aviso

Este blog foi à máquina de lavar, à temperatura recomendada de 40º, tecido brancos, delicados.
espera-se que não haja palavras tingidas,
nem outra espécie de feridos.
ainda assim, há qualquer coisa de
encardido
na linguagem.

Wednesday, October 17, 2007

102º

depois o silêncio.

de

pois

o silêncio

do silêncio

do de pois

o silêncio

de um pássaro aberto em arquitecturas de folha

de um pássaro aberto em estradas de espuma e gerânios

depois o silêncio.

a dividir

o silêncio

do jardim da casa

onde habitam os monstros embelezados pela grande máquina de luz

depois o silêncio.

servido a talher

Thursday, October 11, 2007

101º

de repente os dedos deram .um nó. sobre si mesmos e ficaram .amarrotados. a pensar que eram roupa suja foram esconder-se dentro da máquina de lavar que os tingiu de vermelho porque alguém se esqueceu da boca. um dos mecanismos de vermelho. e ficaram a pensar que eram amor. forraram a pele fosca pela fractura dos fardos .fêmea. estendida sob um ensinamento de sóis. derreteram.
a grande caixa cardíaca abriu-se de corvos
depois.
ardeu a noite toda

Wednesday, October 10, 2007

100 mensagem

uma fila de candeeiros partidos
100. iluminar
um tropeço de poros
100. iluminar
instrumentos de-escrever- cada-vez-menos-palavras
100. iluminar
uma ambiguidade de estuques
100. iluminar
uma caixa de bolos
100.
migalhas

Tuesday, October 02, 2007

Ela. Quero cardar-me na tua pele.

uma inclinação de salivas

sob os cilícios da chuva

uma órbita de vermelho

sob os dedos dilatados

uma sucção de luzes

sob as coxas dos pássaros

uma queda de bocas

sob o carpir dos lençóis

uma paciência de líquidos

sob o início do vértice


Ela. Sabias que.

a

estátua da velha praça de medos

é

uma raiz de thuía

a

esculpir

o

barulho decapitado

- no fim das abóboras

era matá-La.

agonsalhos de outubro

Tens de ter mais confianças em ti! Põe a primeira que o carro está a ir abaixo abaixo.

Sei lá, acreditar mais em ti, nas tuas capacidades! Não achas que isso é sal a mais?

Mostrar aos outros o que vales, erguer a cabeça! Essa roupa não te fica bem, faz-te as ancas mais largas do que já são.

Tens de fazer valer o teu ponto de vista! Não tens razão, o que estás a dizer não tem sentido nenhum.

Saturday, September 29, 2007

sabes as regras não podes dizer .a perda. dizer .a perda. é perder duas vezes

sabes as regras .a perda. um homem não pode perder duas vezes .a perda.

sabes as regras podes brincar não podes dizer podes podes dizer a perca

sabes as regras .a perda. baixinho como se estivesses debaixo de água

sabes as regras a perca a perca a perca a perca a perca a perca a perca a perca

sabes as regras até que tudo seja somente um peixe

sabes as regras um grande peixe de memórias-salitre a decorar a sala

sabes as regras .a perda. um imenso sábado de morrinha na cama desfeita de manhã de single sheets tão feios mas eram .dela. sabes as regras não podes dizer single sheets tão feios eram da perca a perca que entrou no jogo a jogar um par de disponibilidade de olhos na altura a “cabeça do futuro” perguntou não tens medo da disponibilidade e respondeste tenho medo dos olhos e jogaste um ás de corações é a tua vez

sabes as regras .a perda. as escamas parecem-te mais bonitas que nunca

sabes as regras .a perda. mais bonitas o nunca que por acaso está a acontecer agora .a perda. debaixo de água

Friday, September 28, 2007

1. Quase Reflexão sobre Afelicidade

Com licença menina! Os olhos loucos a corar de azul, e um sorriso de sol-do-dia, que no Outono é mais frio e chove, e o cartão desfaz-se com mais facilidade. Ainda por cima tem uma perna em desajustamento rotativo, e coxeiam-lhe as roupas, coxeia-lhe a boina. Está satisfeito! Pescou alguma coisa no caixote do lixo e ainda foi a tempo de apanhar o autocarro. São 11h da manhã e corre-lhe bem o dia! Com licença, minha senhora! E a senhora dá licença. E ele senta-se. De uma simpatia, de uma delicadeza, de uma educação, menos rugosas que as rugas. Pergunto-me se é feliz. Pergunto-me se me perguntaria se ele é feliz se ele fosse outra pessoa, a vestir Normality for Men. Então para ser justa, para não discriminar ninguém, pergunto-me se a senhora que está ao lado dele é feliz.
E se a outra senhora que está atrás da referida primeira, é feliz.
E o senhor, e o rapaz, serão felizes? Pensarão se são felizes? Pensarão sobre a forma e o conteúdo, o estado e o porvir da situação de felicidade da senhora que está à frente, e que poderá ser ou não, muito pouco ou nada, feliz?
Depois pergunto-me, quem dali, a viajar naquele autocarro, àquela precisa hora, será feliz. Depois, para ser mesmo muito justa, pergunto-me
Outra-Coisa-Qualquermente-Inútil.





2. Breve Inquérito sobre Afelicidade

A. e você: já foi feliz hoje?
a) sim
b) não
c) mais ou menos
d)não penso sobre isso

B. Se na pergunta A respondeu a), volte a ler o texto inicial, do início ao fim, ou seja, todo! Se respondeu b) passe directamente ao ponto C deste inquérito. Se respondeu c) pare, escute e olhe, repense e reformule a resposta. Se respondeu d), congratule-se, vá à sua vida, obrigada pela atenção dispensada, não volte a responder a inquéritos, tenha uma boa tarde.

C. Este inquérito foi breve, para que não desperdice afelicidade, para que tenha tempo para afelicidade, no fundo e à superfície, não queremos atrapalhar a sua AFLICIDADE!Porque o que está aqui em jogo, é AFLICIDADE de tod@s @s portugueses!!!